Entrevista | OET – Ordem dos Engenheiros Técnicos | Benefícios – Associado Efetivo PTPC/Cluster AEC

Entrevista | OET – Ordem dos Engenheiros Técnicos | Benefícios – Associado Efetivo PTPC/Cluster AEC

Engenheiro Técnico José Manuel Sousa, Bastonário da Ordem dos Engenheiros Técnicos
Engenheiro Técnico José Manuel Sousa, Bastonário da Ordem dos Engenheiros Técnicos

1. Quais são atualmente as principais prioridades da vossa Ordem Profissional?

A missão da Ordem dos Engenheiros Técnicos não é apenas acompanhar a evolução da engenharia; é ajudar a construí-la.

Vivemos um momento absolutamente decisivo para Portugal. Nunca o País precisou tanto de engenharia como hoje.

Precisamos de construir mais habitação, modernizar infraestruturas, adaptar o território às alterações climáticas, acelerar a transição energética, reforçar a proteção civil e aumentar a competitividade da nossa economia.

Nenhum destes objetivos será alcançado sem engenharia de qualidade.

É por isso que a prioridade da Ordem é muito clara: colocar a competência técnica no centro das decisões.

Queremos profissionais cada vez mais preparados, mais especializados e mais próximos da inovação tecnológica.

Mas queremos igualmente que a sociedade reconheça que investir em engenharia não é um custo é um investimento na segurança, na qualidade de vida, na competitividade e no futuro.

Por isso estamos a apostar fortemente na formação contínua, na aproximação às instituições de ensino superior, na criação de novas especialidades e numa maior participação da Ordem na definição das políticas públicas.

A engenharia não deve ser apenas consultada quando surgem problemas.

Deve estar presente desde o primeiro momento em que se pensa o futuro do País.

Porque um país competitivo começa sempre por uma engenharia competente.

 

2. Qual foi a maior evolução dos últimos anos?

Estamos a viver a maior transformação da engenharia desde a Revolução Industrial.

Durante décadas a engenharia foi sobretudo associada ao cálculo e ao projeto.

Hoje isso já não basta.

Entrámos definitivamente na era dos dados, da inteligência artificial, dos modelos digitais, da industrialização da construção, da economia circular e da gestão inteligente dos ativos.

A engenharia passou a integrar todo o ciclo de vida das infraestruturas.

Projetamos, Construímos, Monitorizamos, Gerimos, Prevemos e Otimizamos.

Esta transformação representa uma enorme oportunidade para Portugal.

Os nossos engenheiros têm demonstrado uma extraordinária capacidade de adaptação e são hoje reconhecidos internacionalmente pela sua competência.

O desafio está agora nas organizações.

A verdadeira transformação digital não acontece quando compramos software, acontece quando mudamos a forma de pensar, de trabalhar e de colaborar.

E essa mudança ainda está apenas a começar.

 

3. Quais são hoje as maiores preocupações dos profissionais?

O maior problema da engenharia portuguesa não é tecnológico, é humano.

Os nossos profissionais dizem-nos diariamente que o País está a perder talento.

Muitos jovens continuam a procurar no estrangeiro oportunidades que Portugal deveria ser capaz de oferecer.

Ao mesmo tempo, aumenta a exigência regulamentar, cresce a responsabilidade técnica e reduzem-se frequentemente os prazos disponíveis para desenvolver projetos de elevada complexidade.

Existe igualmente uma preocupação crescente com a valorização da competência técnica.

Num setor onde estão em causa vidas humanas, património e investimento público, o conhecimento não pode ser tratado como uma mercadoria indiferenciada.

A Ordem procura responder através de mais formação, maior proximidade aos membros, reforço da especialização e participação ativa na construção das soluções legislativas.

Mas existe uma mensagem que considero essencial.

Temos de voltar a colocar a competência no centro da decisão.

Porque quando a competência perde valor, toda a sociedade e o país perdem.

 

4. Onde vê as maiores oportunidades?

Portugal pode transformar alguns dos seus maiores problemas nas suas maiores oportunidades.

A necessidade de construir habitação, a adaptação às alterações climáticas, a gestão da água, a reabilitação urbana, a eficiência energética, a proteção civil, as infraestruturas resilientes e a mobilidade sustentável são desafios atuais do nosso país. E todos estes desafios exigem engenharia.

Ao mesmo tempo, a reputação internacional dos engenheiros portugueses nunca foi tão elevada.

A nossa capacidade técnica é reconhecida em praticamente todos os continentes e isso cria uma oportunidade única para aumentar a internacionalização das empresas portuguesas.

Mas essa internacionalização exige inovação permanente. Quem competir apenas pelo preço dificilmente vencerá e quem competir pelo conhecimento terá sempre futuro.

 

5. Como vê a Inteligência Artificial?

A Inteligência Artificial não veio substituir os engenheiros. Veio aumentar a importância dos verdadeiros engenheiros.

Existe muito entusiasmo em torno da IA e também algum receio.

Mas importa perceber que a engenharia sempre evoluiu através da tecnologia.

Primeiro foi a régua de cálculo, depois o computador, mais tarde o CAD, depois o BIM … e agora a Inteligência Artificial.

Cada revolução tecnológica libertou os engenheiros das tarefas repetitivas.

Nunca substituiu aquilo que verdadeiramente caracteriza um engenheiro: o pensamento crítico, a criatividade, o julgamento, a responsabilidade técnica e a ética.

É precisamente aí que as Ordens Profissionais assumem um papel determinante.

Não para travar a inovação, mas para garantir que ela acontece com qualidade, segurança e responsabilidade.

A IA será uma ferramenta extraordinária, mas continuará a ser apenas isso … uma ferramenta.

A responsabilidade continuará sempre a ser humana.

 

6. O que precisa Portugal?

Portugal precisa menos de burocracia e mais de engenharia.

Se queremos um País mais competitivo temos de criar condições para quem investe e isso significa procedimentos mais simples, licenciamentos mais rápidos, planeamento de longo prazo, maior estabilidade legislativa, maior previsibilidade.

Mas significa igualmente valorizar o conhecimento técnico.

Em Portugal, nos últimos anos, habituamo-nos, muitas vezes por imposição do enquadramento regulamentar, a escolher pelo menor preço quando deveríamos escolher pela maior competência e isso acaba por sair muito mais caro ao País.

Precisamos, igualmente, de investir na inovação, na investigação aplicada e na transferência de conhecimento entre universidades, empresas e profissionais.

A engenharia portuguesa tem capacidade para liderar muitas das transformações que o mundo enfrenta, o que necessita é de um enquadramento que premeie a competência, a inovação e a qualidade.

Porque há uma convicção que me acompanha há muitos anos e que resume aquilo em que acredito nos conceitos seguintes:

Portugal constrói-se quando a competência encontra a capacidade de execução e concretização. E a engenharia é a ponte entre ambas.

A engenharia não é apenas uma profissão.

É uma forma de transformar conhecimento em progresso, ciência em qualidade de vida e visão em desenvolvimento.

Os Engenheiros Técnicos têm orgulho em fazer parte dessa transformação. Porque as sociedades não evoluem apenas pelas ideias que têm, evoluem pela capacidade de as concretizar.

E é precisamente aí que intervém a Engenharia.