
1. Quais são atualmente as principais prioridades da vossa Ordem Profissional?
A missão da Ordem dos Engenheiros Técnicos não é apenas acompanhar a evolução da engenharia; é ajudar a construí-la.
Vivemos um momento absolutamente decisivo para Portugal. Nunca o País precisou tanto de engenharia como hoje.
Precisamos de construir mais habitação, modernizar infraestruturas, adaptar o território às alterações climáticas, acelerar a transição energética, reforçar a proteção civil e aumentar a competitividade da nossa economia.
Nenhum destes objetivos será alcançado sem engenharia de qualidade.
É por isso que a prioridade da Ordem é muito clara: colocar a competência técnica no centro das decisões.
Queremos profissionais cada vez mais preparados, mais especializados e mais próximos da inovação tecnológica.
Mas queremos igualmente que a sociedade reconheça que investir em engenharia não é um custo é um investimento na segurança, na qualidade de vida, na competitividade e no futuro.
Por isso estamos a apostar fortemente na formação contínua, na aproximação às instituições de ensino superior, na criação de novas especialidades e numa maior participação da Ordem na definição das políticas públicas.
A engenharia não deve ser apenas consultada quando surgem problemas.
Deve estar presente desde o primeiro momento em que se pensa o futuro do País.
Porque um país competitivo começa sempre por uma engenharia competente.
2. Qual foi a maior evolução dos últimos anos?
Estamos a viver a maior transformação da engenharia desde a Revolução Industrial.
Durante décadas a engenharia foi sobretudo associada ao cálculo e ao projeto.
Hoje isso já não basta.
Entrámos definitivamente na era dos dados, da inteligência artificial, dos modelos digitais, da industrialização da construção, da economia circular e da gestão inteligente dos ativos.
A engenharia passou a integrar todo o ciclo de vida das infraestruturas.
Projetamos, Construímos, Monitorizamos, Gerimos, Prevemos e Otimizamos.
Esta transformação representa uma enorme oportunidade para Portugal.
Os nossos engenheiros têm demonstrado uma extraordinária capacidade de adaptação e são hoje reconhecidos internacionalmente pela sua competência.
O desafio está agora nas organizações.
A verdadeira transformação digital não acontece quando compramos software, acontece quando mudamos a forma de pensar, de trabalhar e de colaborar.
E essa mudança ainda está apenas a começar.
3. Quais são hoje as maiores preocupações dos profissionais?
O maior problema da engenharia portuguesa não é tecnológico, é humano.
Os nossos profissionais dizem-nos diariamente que o País está a perder talento.
Muitos jovens continuam a procurar no estrangeiro oportunidades que Portugal deveria ser capaz de oferecer.
Ao mesmo tempo, aumenta a exigência regulamentar, cresce a responsabilidade técnica e reduzem-se frequentemente os prazos disponíveis para desenvolver projetos de elevada complexidade.
Existe igualmente uma preocupação crescente com a valorização da competência técnica.
Num setor onde estão em causa vidas humanas, património e investimento público, o conhecimento não pode ser tratado como uma mercadoria indiferenciada.
A Ordem procura responder através de mais formação, maior proximidade aos membros, reforço da especialização e participação ativa na construção das soluções legislativas.
Mas existe uma mensagem que considero essencial.
Temos de voltar a colocar a competência no centro da decisão.
Porque quando a competência perde valor, toda a sociedade e o país perdem.
4. Onde vê as maiores oportunidades?
Portugal pode transformar alguns dos seus maiores problemas nas suas maiores oportunidades.
A necessidade de construir habitação, a adaptação às alterações climáticas, a gestão da água, a reabilitação urbana, a eficiência energética, a proteção civil, as infraestruturas resilientes e a mobilidade sustentável são desafios atuais do nosso país. E todos estes desafios exigem engenharia.
Ao mesmo tempo, a reputação internacional dos engenheiros portugueses nunca foi tão elevada.
A nossa capacidade técnica é reconhecida em praticamente todos os continentes e isso cria uma oportunidade única para aumentar a internacionalização das empresas portuguesas.
Mas essa internacionalização exige inovação permanente. Quem competir apenas pelo preço dificilmente vencerá e quem competir pelo conhecimento terá sempre futuro.
5. Como vê a Inteligência Artificial?
A Inteligência Artificial não veio substituir os engenheiros. Veio aumentar a importância dos verdadeiros engenheiros.
Existe muito entusiasmo em torno da IA e também algum receio.
Mas importa perceber que a engenharia sempre evoluiu através da tecnologia.
Primeiro foi a régua de cálculo, depois o computador, mais tarde o CAD, depois o BIM … e agora a Inteligência Artificial.
Cada revolução tecnológica libertou os engenheiros das tarefas repetitivas.
Nunca substituiu aquilo que verdadeiramente caracteriza um engenheiro: o pensamento crítico, a criatividade, o julgamento, a responsabilidade técnica e a ética.
É precisamente aí que as Ordens Profissionais assumem um papel determinante.
Não para travar a inovação, mas para garantir que ela acontece com qualidade, segurança e responsabilidade.
A IA será uma ferramenta extraordinária, mas continuará a ser apenas isso … uma ferramenta.
A responsabilidade continuará sempre a ser humana.
6. O que precisa Portugal?
Portugal precisa menos de burocracia e mais de engenharia.
Se queremos um País mais competitivo temos de criar condições para quem investe e isso significa procedimentos mais simples, licenciamentos mais rápidos, planeamento de longo prazo, maior estabilidade legislativa, maior previsibilidade.
Mas significa igualmente valorizar o conhecimento técnico.
Em Portugal, nos últimos anos, habituamo-nos, muitas vezes por imposição do enquadramento regulamentar, a escolher pelo menor preço quando deveríamos escolher pela maior competência e isso acaba por sair muito mais caro ao País.
Precisamos, igualmente, de investir na inovação, na investigação aplicada e na transferência de conhecimento entre universidades, empresas e profissionais.
A engenharia portuguesa tem capacidade para liderar muitas das transformações que o mundo enfrenta, o que necessita é de um enquadramento que premeie a competência, a inovação e a qualidade.
Porque há uma convicção que me acompanha há muitos anos e que resume aquilo em que acredito nos conceitos seguintes:
Portugal constrói-se quando a competência encontra a capacidade de execução e concretização. E a engenharia é a ponte entre ambas.
A engenharia não é apenas uma profissão.
É uma forma de transformar conhecimento em progresso, ciência em qualidade de vida e visão em desenvolvimento.
Os Engenheiros Técnicos têm orgulho em fazer parte dessa transformação. Porque as sociedades não evoluem apenas pelas ideias que têm, evoluem pela capacidade de as concretizar.
E é precisamente aí que intervém a Engenharia.