
1. Os projetos começam muito antes da obra. Na sua opinião, qual é a decisão tomada na fase de conceção que mais influencia o sucesso, ou fracasso, de um empreendimento?
Um projeto nasce para dar forma a uma ideia. É um processo essencialmente intelectual e criativo, cuja evolução, ao longo das suas várias fases, é, por vezes, difícil de antecipar. À medida que o projeto evolui, vamos aprofundando o conhecimento sobre as condições em que se insere o projeto e adequando a solução às mesmas, reduzindo a incerteza que lhe está associada. É, portanto, um processo adaptativo, que deve ser devidamente fundamentado.
Nesse sentido, a definição clara dos requisitos de projeto logo na fase inicial desempenha um papel decisivo para o sucesso de um empreendimento, na medida em que orienta a conceção da solução. Contudo, sendo o projeto um processo evolutivo, é fundamental que esteja associado a um planeamento realista que contemple as suas diferentes fases e a recolha da informação de base necessária (geológica, geotécnica, topográfica, ambiental, entre outras), o que é indispensável para adequar a conceção das soluções e suporta a tomada de decisões.
A definição rigorosa do âmbito e um planeamento adequado, associados ao rigor técnico, são elementos-chave para o sucesso de qualquer projeto.
2. Se pudesse redesenhar hoje uma grande cidade portuguesa para responder aos desafios de 2050, quais seriam as três prioridades que colocaria no centro desse planeamento?
As alterações sociais e climáticas que temos vindo a experienciar nos últimos anos permitem-identificar os principais aspetos que deveriam orientar o conceito de uma cidade preparada para os desafios de 2050. Nesse exercício, tenderia a priorizar: a mobilidade urbana, com foco na utilização do espaço subterrâneo, e mobilidade de proximidade com sistemas partilhados, articulada com interfaces multimodais, para ligações a sistemas de transportes públicos de média e longa distância, permitindo reduzir a utilização automóvel e recuperar o espaço urbano para as pessoas; a resiliência do espaço urbano para resistir a eventos climáticos extremos, nomeadamente no controlo de cheias, minimizando impactos sociais e económicos; e, por fim, a reabilitação do património edificado, promovendo, por um lado, a eficiência energética e a utilização de sistemas de monitorização que permitissem a utilização mais racional de meios (como que criar gémeos digitais de cada espaço habitacional ou de escritórios), e, por outro, o reforço da resiliência estrutural, mitigando os riscos associados a eventos extremos, nomeadamente eventos sísmicos.
A TPF Consultores está envolvida em diversos projetos que respondem a algumas destas prioridades, nomeadamente, a implementação do Plano Geral de Drenagem da Cidade de Lisboa e as expansões das redes de metro de Lisboa e do Porto, que certamente contribuirão para que, em 2050, estas cidades estejam mais bem preparadas.
3. A Inteligência Artificial está a transformar muitos setores. Que tarefas dos arquitetos e engenheiros acredita que serão automatizadas e quais continuarão a depender essencialmente do talento humano?
A Inteligência Artificial não substituirá arquitetos e engenheiros, mas está já a transformar a forma como trabalhamos, contribuindo para uma maior eficiência dos processos. A curto e médio prazo, assistiremos à automatização progressiva de tarefas repetitivas e computacionalmente intensivas, como o processamento e análise de dados, a verificação automatizada do cumprimento de regulamentos e normas técnicas, a geração e otimização de alternativas estruturais ou energéticas, a deteção de conflitos em modelos BIM, entre outros aspetos.
Contudo, como referi no início, elaborar um projeto ou construir uma obra envolve sempre uma forte componente intelectual e criativa, associada à componente técnica, que tem de ter em conta a identidade cultural, social e ambiental do meio envolvente, sendo fundamental o julgamento crítico dos arquitetos e engenheiros. A mediação de interesses entre os diversos intervenientes do projeto e da obra, a negociação, a empatia nas relações entre esses intervenientes e a assunção da responsabilidade ética e legal dos projetos são competências estritamente humanas e que não serão substituídas pela IA.
Na TPF encaramos a IA como uma ferramenta que liberta as nossas pessoas de tarefas mais rotineiras, ao mesmo tempo que torna os processos de trabalho mais robustos, permitindo-lhes focar o seu tempo e a capacidade intelectual naquilo que traz verdadeiramente valor acrescentado: a criatividade, a inovação e a excelência técnica.
4. Qual foi o projeto mais desafiante da sua empresa e que ensinamento desse projeto continua a influenciar a forma como lidera equipas e toma decisões?
A história da TPF Consultores, com mais de 45 anos, não se consegue resumir num único projeto. Ao longo de todos estes anos, a TPF Consultores esteve, e continua a estar, envolvida na realização de grandes empreendimentos multidisciplinares, de grande escala e elevado impacto público, tanto nacionais como internacionais, quer como projetista, quer como entidade responsável pela fiscalização.
Entre esses grandes empreendimentos poder-se-ão destacar: o desenvolvimento das infraestruturas rodoviárias na ilha da Madeira e diversas infraestruturas rodoviárias em Portugal Continental; a renovação da rede ferroviária nacional, com importantes projetos como a Linha da Beira Alta e a Linha de Évora-Caia, já em fase de conclusão, a implementação da rede de alta velocidade em Portugal, assim como o acompanhamento de diversos projetos ferroviários internacionais, nomeadamente na Argélia; a expansão das redes de metro subterrâneas de Lisboa, Porto, Argel, na Argélia, e Bucareste, na Roménia; empreendimentos nos setores do abastecimento de água, sistemas de saneamento e aproveitamentos hidroagrícolas e hidroelétricos, quer em Portugal, quer em África; importantes investimentos no setor hospitalar, como o Hospital de Lisboa Oriental, atualmente em curso, e um conjunto de hospitais e outras infraestruturas de saúde em Angola, onde a TPF tem vindo a consolidar uma forte intervenção; importantes projetos da indústria mineira em Portugal, Moçambique, Brasil e Índia; e mais, recentemente, para além de diversos projetos de renovação dos aeroportos em Portugal, a participação na grande expansão do aeroporto de Douala, nos Camarões.
A forma como lidero as equipas e tomo decisões reflete a cultura da empresa, que me foi transmitida por aqueles que me precederam. A história da TPF Consultores moldou a nossa forma de trabalhar, assente na paixão e rigor técnico. É essa forma de trabalhar que está expressa na nossa Missão: “Prestamos serviços integrados de engenharia e arquitetura, combinando paixão e rigor técnico. Trabalhamos de perto com nossos clientes, tanto nacionais quanto internacionais, fundamentados na vasta experiência e conhecimento que nos caracterizam. O nosso compromisso com a integridade e a sustentabilidade guia-nos na atração, desenvolvimento e retenção de talentos apaixonados pelo que fazem.”
5. Neste domínio, o que distingue uma empresa verdadeiramente preparada para competir nos mercados internacionais nos próximos 10 anos?
A capacidade e o rigor técnico de uma empresa, aliados à multidisciplinaridade, são aspetos fundamentais para competir em qualquer mercado. Contudo, o contexto social atual impõe muitos desafios que obrigam as organizações a incorporar outras competências para poderem competir nos mercados internacionais. Nesse sentido, destaco a integração da digitalização nas atividades de projeto e fiscalização e a sustentabilidade das soluções desenvolvidas nos projetos, aliados a adaptabilidade cultural das suas pessoas envolvidas em projetos internacionais.
A internacionalização da TPF Consultores está hoje plenamente integrada na estratégia da empresa e constitui um fator fundamental para a sua sustentabilidade. A capacidade e o rigor técnico das equipas multidisciplinares da TPF Consultores, aliados a ferramentas e metodologias inovadoras já implementadas nos nossos fluxos de trabalho, potenciados por mais de 20 anos de experiência em projetos internacionais, permitem-nos estar preparados para responder em contextos muito diferentes daqueles em que atuamos em Portugal. Por outro lado, o facto de estarmos inseridos num grupo internacional com mais de 5 500 pessoas espalhadas pelo Mundo permite tirar partido das sinergias criadas entre as empresas do grupo.
6. Se pudesse deixar apenas uma recomendação aos decisores públicos para melhorar a qualidade do ambiente construído em Portugal, qual seria?
Se tivesse de resumir essa recomendação a uma única medida estratégica, com impacto a curto prazo, seria a mudança de paradigma na contratação pública, privilegiando a qualidade e o desempenho dos ativos ao longo do seu ciclo de vida, em detrimento do custo imediato da prestação de serviços.
Em Portugal, a contratação de serviços de arquitetura e engenharia continua, demasiadas vezes, centrada no critério do preço mais baixo. Esta opção compromete o resultado final, com custos acrescidos para o Estado, e penaliza, também, as empresas que investem no desenvolvimento contínuo das suas equipas e na inovação. Consequentemente, este enquadramento tem conduzido à desvalorização das profissões do setor AEC e ao afastamento das novas gerações desse setor.
Investir em projetos de elevada qualidade técnica representa uma pequena parcela do investimento total de um empreendimento. Contudo, é nessa fase que se define uma parte relevante do seu futuro, com impacto significativo nos aspetos sociais, ambientais e económicos que lhe estão associados. Da mesma forma, a presença em obra de equipas de fiscalização experientes e capacitadas, complementadas por ferramentas digitais, é determinante para assegurar o cumprimento dos requisitos de projeto e a sua adequação às reais condições do terreno, aspetos esses que são cruciais para garantir a qualidade da obra construída.
No fundo, acredito que projetos de sucesso começam muito antes da obra construída: começam nas decisões que tomamos quando escolhemos valorizar a experiência, o conhecimento, o talento, a inovação tecnológica e a qualidade técnica das empresas, em detrimento de se colocar o foco principal da decisão no custo direto da contratação do projeto, ou da fiscalização, ou da construção. Esse será, estou convicto, um passo fundamental para valorizar o setor e garantir um ambiente construído mais sustentável, eficiente e resiliente em Portugal.